A ÁRVORE QUE A MÁQUINA NÃO VIU CRESCER

por Rafael Boccardi

Cena do filme Meu Amigo Totoro (1988)

Entre dragões, florestas e paisagens que parecem saídas de um sonho, o Studio Ghibli construiu mundos que marcaram gerações. Mas em uma era em que as máquinas também começam a sonhar, a pergunta que não quer calar é: o que acontece quando a inteligência artificial tenta replicar a alma de um estúdio como o Ghibli?

O uso da inteligência artificial generativa na produção de imagens vem reacendendo debates antigos sob uma nova luz: afinal, o que é criação e o que é cópia em tempos de algoritmos?

Não se trata apenas de estética. Trata-se de memória, autoria e ética.

Recentemente, a estética do Studio Ghibli passou a ser replicada por modelos generativos como Midjourney, DALL·E e Stable Diffusion. Basta uma instrução textual simples, como “a landscape in Ghibli style”, e surgem imagens que ecoam a paleta, os traços e as composições dos filmes de Hayao Miyazaki.

Essas imagens, no entanto, não nascem do nada. Os modelos generativos são alimentados por vastos conjuntos de dados, muitas vezes sem consentimento explícito de artistas, estúdios ou autores originais. A obra, nesse contexto, vira matéria-prima invisível de um novo tipo de produção automatizada, onde o conceito de autoria se dilui.

Do ponto de vista jurídico, isso levanta questões sérias. A legislação de direitos autorais protege a originalidade e o vínculo entre criador e obra. Mas como aplicar essa lógica a um modelo que gera imagens baseadas em milhares de obras humanas, mas que não “cria” de forma consciente?

Ainda vivemos uma lacuna legal e ética. A IA não possui intencionalidade ou vivência, portanto não pode ser considerada autora. Porém, os dados usados por ela possuem história, cultura e propriedade.

O Studio Ghibli, conhecido por rejeitar até animações em 3D para preservar a delicadeza do traço manual, agora se vê involuntariamente incorporado a bancos de dados que treinam máquinas a simular sua estética. Isso nos obriga a refletir: estamos prestando homenagem ou apropriando-nos de sua linguagem sem o devido crédito?

Miyazaki Hayao — Co-fundador do Studio Ghibli

Porque uma IA pode replicar um traço. Mas não compreende o peso simbólico de uma árvore que cresce lentamente num campo animado por Miyazaki.

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